A Banca – Uma Mudança de Paradigma!


A Banca – Uma Mudança de Paradigma!

Muito se tem escrito e discutido sobre o sistema bancário, com particular acuidade, a partir de Setembro de 2008, altura em que foram dados a conhecer, urbi et orbi, um conjunto de escândalos que lançaram na miséria e no desemprego, uma parte considerável da “população ativa”, e destruindo-se uma fatia gigantesca do nosso tecido empresarial e da nossa capacidade produtiva, logo, de competitividade e afirmação do país, num mundo de economia cada vez mais globalizada e integrada.
As causas invocadas foram cirurgicamente diagnosticadas e microscopicamente analisadas por uma infindável grupo de doutos especialistas em vários ramos do saber.
O leque apresentado, incidia desde os mais elementares erros de gestão, e até, de gestão danosa, até às falhas de supervisão, prudencial e comportamental, passando pelas insuficiências nos mecanismos internos de auditoria, organização e metodologias de trabalho, em conformidade com as boas práticas.
Acresce a ineficácia de prestigiadas empresas de consultoria e auditoria.

Poderíamos acrescentar, sem grandes riscos de falibilidade, o descontrolo interno dos gastos públicos, a inexorável ganância de grupos económicos e financeiros, os salários, regalias e bónus faraónicos de gestores de topo, a ausência de uma política assertiva de apoio financeiro às empresas de pequena e média dimensão, a promiscuidade entre a atividade bancária e o sector imobiliário, segurador, entre outros. E, sem dúvida, a descaracterização dos operadores bancários, com a concessão despudorada de crédito para aquisição de ações, com adiantamentos sobre cheques pós datados, com as comissões irracionais e ilógicas, com a utilização abusiva do crédito à habitação em regime bonificado, da massificação irresponsável, de cartões de crédito, e, a indecorosa promiscuidade entre certos agentes imobiliários e a banca, através de financiamentos (crédito à habitação)a 100% sobre os valores dos imóveis e por prazos de 40 anos, sem omitir a proliferação de finalidades para crédito ao consumo, entre as quais, o crédito para férias…

Importa ter bem presente que, durante este percurso dos último 20 anos, os gestores de topo, sempre se intitularam como arautos do rigor, do legalismo, da racionalidade de gestão, do cumprimento escrupuloso da regulamentação sobre a atividade bancária, das boas práticas de gestão e do inestimável valor reputacional das instituições que geriam, sendo certo, que todas elas dispunham de códigos deontológicos que juravam cumprir e fazer cumprir!
Este tema, quase inesgotável, leva-nos a repensar todo o edifício e a redesenhar os moldes em que a banca opera, ou seja, a equacionar uma verdadeira refundação da mesma, sustentada por valores éticos e fiduciários, bem como por uma perspectiva humanista e socialmente integradora ( e, não elitista e segregadora), designadamente, na concessão de crédito. A Banca, desempenha uma função social relevantíssima, devendo ser o verdadeiro motor da economia, abdicando de uma visão puramente economicista da sociedade. Ou seja, é indispensável um verdadeiro “contrato social” sob pena de continuarmos a criar “ghetos”, onde a palavra “solidariedade” resulta numa mera figura de estilo.

Jornal Diário de Leiria, 06 de Maio 2015.

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António Araújo

Administrador
A.F. Araújo & Associados, SA.

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